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Viagens na minha terra

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Este blogue revela a minha visão sobre o local onde vivo, sobre o local onde trabalho e sobre os locais por onde viajo.
Fotografar é para mim uma paixão. Gosto de fotografar tudo, por mais insólito que às vezes possa parecer.
Se comunga deste prazer, seja bem vindo!

Pedro Coutinho

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em Farol Museu de Santa Marta

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Regressar sempre

Ainda me lembro como se fosse hoje, do dia em que cheguei a Lisboa pela primeira vez. Tinha seis anos. Apanhei um avião na ilha do Sal, em Cabo Verde, a viagem foi um tormento, sobrevivi à turbulência do vento, desembarquei com o meu melhor fato todo rabugento. Naquele tempo, viajar para a metrópole equivalia, em termos de indumentária, a muito mais do que um domingo. Era um dia de festa. O meu melhor fato tinha mangas e pernas curtas. Foi mandado fazer, de propósito para a ocasião, na melhor modista do Bairro da Preguiça. Mas a expectativa da viagem deve ter-me emagrecido quilos de nervosismo, porque as bermudas caíam pelas pernas. o meu pai bem que procurou o meu cinto, não o encontrou e, por isso, improvisou - segurou-me as calças com uma das suas gravatas.
Quando cheguei a Lisboa as minhas mãos suavam de curiosidade. Da Metrópole sabia pouco. Além do nome dos avançados do Benfica - José Augusto, Eusébio, Torres e Simões - era uma página em branco. Desconhecia, por exemplo, que Portugal cheirava a relva. E tinha candeeiros nas ruas para alegrar a escuridão. Mas isso ainda era o menos. O mais grave é que tinha um problema de expressão. “Aqui ninguém percebe crioulo”, o aviso do meu pai ainda me ecoa nos ouvidos.
Afinal era um falso problema. Uma das virtudes dos portugueses é acreditarem que dominam todos os idiomas - basta, para isso, falarem de maneira calma e pausada. E falavam, falavam, com a boca, os olhos, sobretudo com as mãos, e eu ouvia, ouvia, absorvia a minha nova língua, a minha nova cidade. Só anos mais tarde é que compreendi que a isto se chama hospitalidade.
Não foi difícil aprender a gostar desta cidade. Os meus olhos esbugalhados deixaram-se enfeitiçar pela sua luz, perdi-me nas suas sete colinas, aprendi a navegar nas ondas sagradas do Tejo. Com o olhar. Foi talvez por isso que voltei mais vezes ao longo da vida, tantas que por aqui fiquei. Agora Lisboa também é a minha ilha. Com o passar dos anos aprendi que Portugal é muito mais do que Lisboa. É a tranquilidade que se respira no Alentejo, o vento que nos acaricia a mente na costa vicentina, a beleza esmagadora do Douro. É um verso de Sophia Mello Breyner Andresen, o bailado de Cristiano Ronaldo, um quadro de Paula Rego, o sorriso ternurento de Raul Solnado. É esta doce saudade que nos acompanha a cada partida e que nos obriga a regressar sempre.

Jorge Araújo - jornalista. Up Magazine, Março de 2008

em Museu Condes de Castro Guimarães

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Weather report (em Guincho)

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